O ensino para a comunidade surda em português e Libras ao mesmo tempo, é um desafio que vem sendo superado a passos lentos, com ganhos na legislação brasileira, mas barrada por vários problemas, que persistem desde o ensino básico ao superior, na área da saúde, lugares públicos e nos eventos sociais.

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Neste domingo (24), ocasião que a Língua Brasileira de Sinais (Libra) completa 20 anos, g1 conversou com quatro amigos, que fundaram em 2019, o Grupo Sinalize, com objetivo de promover inclusão e diminuir barreiras de acessibilidade em Divinópolis e no Centro-Oeste do Estado.

 

Grupo Sinalize

 

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Em 2019, em um momento de debates e na eminencia de um novo modelo da sociedade sem exclusão e sem segregação, em que a afirmação da cidadania e dos direitos humanos se tornam referenciais da prática e da convivência cotidiana, o grupo de amigos, percebeu que precisava mais do que dar apoio, construir uma ponte entre o mundo e a pessoa surda.

Foi neste contexto, que os quatro professores e intérpretes de Libras: Rosselini Diniz de Oliveira, Graciele Kerlen Pereira Maia, Mariluce Nunes dos Santos Diniz e Renato Fernandes Machado, se uniram, junto com o surdo Bruno Henrique, e fundaram o Grupo Sinalize, com o intuito principal de estimular a acessibilidade através da tradução e interpretação de eventos, interação entre surdos e ouvintes, difundir a Língua Brasileira de Sinais – Libras por meio de cursos, oficinas e eventos culturais, contribuindo sempre com a acessibilidade e inclusão social dos surdos.

Ross Diniz é um dos integrantes do grupo. Ele conta que começou a estudar a língua de sinais ainda na faculdade de Letras, quando logo foi convidado como estagiário em uma escola de surdos na cidade, a escola AAVIDA. Desde 2013 ele ingressou neste universo e aperfeiçoou cada vez mais sua didática.

Hoje, além da língua de sinais e o português, ele ensina inglês para a comunidade surda. Em sua coleção de grandes avanços na carreira, Ross enaltece as atividades do grupo Sinalize como uma arma poderosa de acessibilidade.

 

“Nos juntamos para conseguir atender a demanda em relação a Libras na região. Atendemos empresas, damos consultoria sobre acessibilidade e inclusão, interpretamos eventos da cidade e damos curso de Libras. Nosso objetivo é tornar nossa região cada vez mais acessível e inclusiva para os surdos”, pontuou.

 

 

"O Sinalize é sem dúvida a realização de um projeto pessoal. Sabemos que ainda não atingimos todas as metas, mas conseguimos dar acessibilidade onde somos solicitados. Isso nos faz crescer profissionalmente e abre oportunidades para novos projetos que visam sempre a garantia da comunicação e interação entre a comunidade surda e ouvinte", completou a professora Mariluce Nunes.

 

 

Educação para surdos

 

Os professores do grupo Sinalize, destacam que a história da educação dos surdos foi bastante cruel com a comunidade. "Por mais de 100 anos foi proibido ensinar a surdos a língua de sinais. Uma perda gigante para o o avanço da comunidade surda", pontuou Ross.

 

"Mas nas duas últimas décadas houveram passos gigantes. Hoje é direito do surdo ser atendido e se expressar com a língua de sinais. Como rege nossas leis vigentes, o surdo deve ser educado para ser um cidadão bilíngue, Libras (como primeira língua) e o português (na modalidade escrita)", destacou o professor.

 

Além disso, os profissionais defendem que a educação para surdos deve ocorrer o quanto antes, no período da infância, já que será a Libras a principal língua do indivíduo surdo.

 

"É na escola que o aluno surdo vai aprender sua língua, a Libras. Pois, como mostram as estatísticas, a maiorias dos surdos nascem em de pais e mães ouvintes, ou seja, em um lar que ninguém sabe a Libras. Por isso é muito importante o aluno surdo ter contato com outros surdos o mais cedo possível e, geralmente, esse espaço é na escola. Assim como para os ouvintes. É através da educação que o surdo consegue espaço e cria uma identidade como ser humano", reiterou o professor Renato Fernandes.

 

 

Libras em diferentes espaços

 

A intérprete Graciele Kerlen Pereira Maia, que também integra o grupo Sinalize e tem uma carreira de 10 anos na área, falou da importância em ter profissionais intérpretes de Libras em todos os espaços e não só nas escolas.

"A pessoa surda vive em sociedade assim como uma pessoa ouvinte. Ela gosta de ir em festas, shows, precisa ir ao banco, clínicas, hospitais, precisam ir ao fórum, ou seja, a vida do surdo é igual a vida de um ouvinte. A única diferença é que existe a barreira da comunicação e o tradutor intérprete rompe essa barreira e faz com que essas relações e os lugares se tornem acessíveis. Por isso, que a presença destes profissionais não é essencial apenas nas escolas, ele precisa e deve estar pressente em todos os âmbitos da vida destes indivíduos. O profissional tradutor e interprete de línguas de sinais e línguas orais, é um agente inclusivo e esse agente precisa estar presente em todos os espaços", enfatizou.

 

Escola para surdos em Divinópolis

 

Escola para surdos em Divinópolis  — Foto: AAVIDA/Divulgação

Escola para surdos em Divinópolis — Foto: AAVIDA/Divulgação

 

Em Divinópolis, a escola AAVIDA, especializada no atendimento de alunos surdos foi fundada em abril de 1979, por um clube formado pelas esposas dos maçons da Loja Maçônica Estrela do Oeste de Minas, que perceberam na cidade, o grande número de pessoas surdas, principalmente crianças e adolescentes, sem receber nenhuma assistência ou atendimento especializado.

Hoje, a escola atende quase 40 alunos surdos de forma gratuita. "Ter uma escola especializada em nossa cidade nos torna privilegiados. Estamos muito acima da média de outras regiões do Brasil. A maioria das regiões interioranas não consegue fazer um atendimento adequado aos alunos surdos e eles acabam mais excluindo a criança do que incluindo", destacou Ross.